Logan Lucky

‘Logan Lucky’, idiotas ou génios do crime?

A América rural e profunda. Conservadora e religiosa, amante de rodeos e música country. A América do interior que ultimamente é criticada pelas suas escolhas. É para aí que Steven Soderbergh, afastado do cinema desde 2013, nos atira. Por mais desconfortável que a associação se configure, ou seja, relacionar um certo estrato social e demográfico com um certo estilo de comportamento, é inevitável não reparar na tentativa do realizador, bem conseguida por sinal, de transportar este seu novo heist movie para o modo de vida americano que muitas vezes é denominado de provinciano. Atenção que Logan Lucky não se veste de crítica social e política nem de troça generalizada. Pelo contrário, um dos seus grandes trunfos é precisamente alienar-se de qualquer julgamento moral ou superiorização em relação às personagens que vão sendo apresentadas. O objetivo do cineasta não é, portanto, refugiar-se nesse estereótipo, mas sim fazer desta comunidade, raramente visitada de forma justa pelo cinema, o ingrediente especial desta história sobre dois irmãos que estão fartos de ser maltratados pelo sistema laboral impiedoso em que estão inseridos. E é na descrição indireta deste sistema que o filme se torna, porventura, num dos trabalhos mais humanos de Soderbergh até à data. O dinheiro, motor de grande parte dos seus enredos, é uma necessidade essencial, imperativa para que os protagonistas possam viver dignamente. Ao contrário dos ladrões da trilogia Ocean’s, da sua autoria e cuja ligação a esta nova obra é inevitável, em Logan Lucky os assaltantes não se vestem de fato de seda, não têm discussões sofisticadas nem são abastados e o resultado do golpe terá um peso qualitativo considerável na sua vida. Personagens que enfrentam o desemprego, o baixo estrato social, pouca educação e traumas de guerra. Personagens que são pessoas verdadeiras, que fogem ao simples estatuto de caricatura, típico do filme cómico. Pessoas como as quais existem milhões num interior dos Estados Unidos ferido por uma crise económica grave e por uma atual confusão de valores e noção exata do que é verdade ou mentira.

Logan Lucky

Com efeito, os hillbillies de que se fala são os irmãos Logan, interpretados por Channing Tatum e Adam Driver. O primeiro, Jimmy. Um condutor de empilhadores, ex-estrela juvenil de futebol americano, que acabou de ser despedido da construção civil devido a uma lesão no joelho. O segundo, Clyde. Um barman maneta, lesão sofrida na guerra do Iraque, que faz questão de frisar constantemente o azar que parece pairar sobre a família Logan. Os dois resolvem pôr em prática um plano para assaltar uma pista de corridas da NASCAR, motivados pelos pormenores adquiridos por Jimmy após ter trabalhado num túnel por debaixo do estádio. Todavia, em contrassenso com o título, este não é um filme sobre pessoas sortudas (ou será?), mas sim um vislumbre da realidade americana a que muitos assiste transferido para tons cómicos e leves: o objetivo é divertir, não massacrar o espetador com reparos sociais, apesar destes estarem efetivamente presentes. É a exibição destes dois inadaptados com uma aparente tendência para más escolhas, possivelmente subestimados, que vai dando ao filme um sabor a suspense raro na obra de Soderbergh, conforme os mecanismos do assalto vão sendo postos em prática sem nunca ser oferecido ao espetador um plano em concreto. “Idiotas ou génios do crime?”, muitos se interrogarão. Um desses mecanismos, sob a forma de personagem, é Joe Bang, interpretado por Daniel Craig. Um especialista em explosivos, tudo menos sofisticado, que se torna parte essencial do plano dos irmãos e do vento cómico que sopra cada cena. Além da química evidente entre Tatum e Driver, com destaque para o segundo devido à falsa apatia que aufere à sua personagem, a interpretação de Craig merece realce como exemplo da reinvenção dum artista que parecia confinado ao quadrado 007. A sua estampa de criminoso meio esperto meio decente de cabelo tingido, tagarela e tatuado é nada mais que entusiasmante, ajudado por um argumento competente escrito por uma Rebecca Blunt que muitos suspeitam ser um pseudónimo da esposa do realizador norte-americano, Jules Asner. De apontar também aos atores o festim de sotaques sulistas, cada um com o seu, que fazem do filme uma espécie de ópera redneck onde estes indivíduos desajustados servem de voz e o barulho dos escapes da NASCAR de percussão. O maestro, quem mais, Steven Soderbergh, que banha o projeto com cores quentes e contrastantes, fazendo uso duma fotografia intuitiva que conduz a ação com eficácia. Tudo é revelado com precisão, com noção do tempo e espaço físico, rara a comédia que é tão bem orquestrada. Por falar em comédia, são vários os momentos hilariantes, oriundos dum humor a roçar o absurdo, puxado ao máximo pelo desânimo das personagens. O riso nunca é de escárnio, nem nasce da piada banal e fácil de construir. Está-se, até, perante um dos filmes mais divertidos deste ano.

Logan Lucky

O regresso de Soderbergh é, portanto, vitorioso, disso não restam dúvidas. A sua utilização de cada segundo do filme para transmitir mais uma ideia, para juntar mais uma peça do puzzle, é deveras eficaz. Ademais, a brincadeira que faz com as noções de azar e sorte, atirando a tal “maldição dos Logan” para o ar sem lhe oferecer, no entanto, um fim prático, revela-se uma jogada inteligente que prende o espetador a uma dúvida constante sobre se o filme está a ser sincero ou, ao invés, extremamente irónico. Ao contrário de, por exemplo, Ocean’s Eleven (2001), em que se prevê que de alguma forma Clooney e companhia vão conseguir chegar ao seu objetivo, em Logan Lucky a sensação de descalabro iminente é omnipresente. Pena que na última meia hora haja uma clara perda de ritmo. Apesar de tudo ter um propósito, o último terço desta história parece nunca arrancar, refém das risadas e momentos astutos que os dois atos anteriores providenciaram. Devido a este claro abrandamento de pulsação, o filme sai magoado como um todo. A descrição anatómica do golpe, os artifícios ocultos que estão por revelar, imagem de marca dos filmes do género do realizador, parecem não compensar a temporização que os precede. Por outras palavras, a calmaria antes da grande tempestade ficou a desejar e a tempestade em si não foi propriamente uma catástrofe de bradar aos céus. O plot twist ficou, em conclusão, aquém das expetativas, não justificando os largos minutos de presságio que o antecederam e roubaram estrondo e circunstância à narrativa. Não obstante, o resultado é um filme divertido, sagaz, tela mais que propícia para o talento do seu realizador, que, infelizmente, veio para agradar à grande maioria, não para surpreender.

Bom

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