Lady Macbeth

‘Lady Macbeth’, de vítima a carrasco

O espartilho sufoca-lhe o ventre. Respirar é difícil, sorrir é difícil, amar é quase impossível. O ambiente estéril e opressivo onde vive pouco lhe deixa viver, senão presa a um livro de orações ou às vontades do marido descortês. Por isso, no canapé amarelo se senta, azul por fora, vazia por dentro. Aprisionada dentro de si, por baixo de toda a indumentária preparada todas as manhãs para satisfazer os caprichos de outrem, reside uma besta negra e adormecida. À espera do momento ideal para sair cá para fora, saciar os seus desejos mais íntimos, brutos e devassos. Será pura malvadez que ali se esconde? Ou a revolta trazida por anos de tédio e de prisão? Enquanto espera, no canapé amarelo se senta, azul por fora, vazia por dentro. À espera dum uivo do vento que lhe traga dias diferentes.

Lady Macbeth

Na Inglaterra rural do século XIX, a jovem Katherine, interpretada por Florence Pugh, é obrigada a casar-se com um homem com o dobro da sua idade. Um matrimónio frio, sem amor, ao estilo da era vitoriana, época onde se firmou, segundo os historiadores, uma dinâmica social negativa no que diz respeito à liberdade da mulher. Katherine não foge a essa regra, forçada a passar os dias fechada em casa, controlada, cronometrada, mesmo que lá fora os rasgos do sol nortenho a chamem por entre a neblina. A sua relação com os que a rodeiam é completamente disfuncional: serve de mero objeto erótico para o marido, que a usa como um instrumento de satisfação sexual, qual revista pornográfica que espreita sempre que lhe apetece, de boneca de porcelana para a escrava da casa, que a mima e limpa por obrigação, e de tapete para os devaneios do patriarca da família, o seu sogro, que faz questão de exigir dela todos os preceitos e decores instaurados na sociedade britânica da altura. Através desta dinâmica reconhecível, ora não se parecesse este filme, à primeira vista, com tantos outros dramas de época, parte-se para um comboio cinematográfico enganador, manipulador, quer porque Katherine não se confirma como essa musa dos pensamentos afáveis do espetador – a personagem oprimida que têm de se libertar -, quer porque o filme foge às ideias preconcebidas do género, atirando-se para terrenos onde bichos bem mais violentos e vorazes reinam. Realizado por William Oldroyd, homem da ópera e do teatro, estreante na realização fílmica, Lady Macbeth (2016) é um ensaio formalista insensível e imprevisível. A inexperiência do realizador, ou melhor, os seus hábitos de encenador de exponenciar várias personagens num espaço envolvente tipicamente reduzido ajudam, e muito, a transformar a jovem Katherine no mártir disfarçado que tão erradamente apoiamos, tão cegos que possamos estar. A colocação intencional desta em espaços específicos do plano de maneira a imiscuir-se com a decoração oitocentista é magistral, qual figura humana irrelevante para aquela história, como se até a própria casa fosse mais importante que ela. Esta técnica transforma-se também numa janela para a sua alma oca, para o seu aborrecimento. Tanta vida lá fora e ela a vê-la pela janela, encarcerada pelo espartilho inútil e pelos grilhões impostos pelas figuras masculinas.

Lady Macbeth

Tudo muda quando esta é abandonada à mercê das suas vontades: o marido viaja em negócios e o sogro vai fazendo visitas às gotas, entre as quais esta fura e abre as janelas e portas do seu presídio vitoriano. Daí parte ao encontro do vento, do sol, da liberdade momentânea que lhe sopra no cabelo e sussurra palavras sórdidas ao ouvido. Como tal, não é surpresa que conheça Sebastian (Cosmo Jarvis), um jovem ofegante, rude, serviçal da família e parte ainda integrante da arquitetura narrativa expectável que vai parar à sua cama. Do sexo e da luxúria nasce o monstro que altera irremediavelmente o rumo deste ensaio minimalista. Katherine começa a explorar a ausência das figuras opressoras, testa os limites da sua aventura, aproveita-se das dinâmicas sociais vigentes – escravo não comenta as transgressões do mestre – para levar a sua traição avante. E, quando percebe que essa folga sexual e psicológica, acendalha a meio lume duma possível vida decente, pode ser rapidamente anulada, mata. Sem banda sonora, sem lágrimas, sem remorso. Fria e calculadamente. Passa de vítima a carrasco. Com tal facilidade que árdua será a mudança de velocidade imposta ao espetador, provavelmente ainda preso à ideia pré-fabricada de que a donzela aprisionada era tudo menos a personagem perversa e distorcida em que rapidamente se transforma. Elemento preponderante neste esquema sórdido é também a ausência de música, o que provoca um ambiente nauseabundo a filme de terror, conforme a atrocidade da protagonista vai ficando mais pesada, mais grave. Germina, portanto, um dilema moral: até que ponto deve alguém ir em nome da libertação? Até que ponto devo torcer por esta personagem? Lady Macbeth, inspirado na novela ‘Lady Macbeth de Mtsensk’ escrita em 1865 por Nikolai Leskov, adaptado por Alice Birch, e com laivos do ‘Macbeth’ de William Shakespeare, vira o conto da anti-heroína gótica do avesso, dá-lhe crueldade, dá-lhe uma instabilidade memorável.

Lady Macbeth

Porém, a eficácia deste ensaio frívolo, pois existe uma falta de empatia considerável entre as personagens, uma que é intencional, apenas é possível devido à interpretação feroz e enigmática da praticamente desconhecida Florence Pugh. À sua personagem esta dá uma vivacidade mórbida, o bafo viciante duma inocência perdida à força para a estupidez dos homens. No entanto, funciona também como uma charada, um labirinto com duas portas escondidas que nunca ninguém irá encontrar, uma que dá para um sentimento feminista, outra para a mente felina dum predador esfomeado. Ofuscada inevitavelmente pela irreverência de Pugh é Naomi Ackie, a atriz que interpreta a escrava encarregue de acompanhar as lides da senhora Macbeth e que testemunha os seus atos mais vis, tornada cúmplice indireta dos mesmos. Esta funciona discretamente como consciência do filme e, possivelmente, do espetador, como espelho invertido dos atos da sua mestra. Conforme o poder da esposa rebelde vai aumentando, a voz da pobre escrava vai diminuindo, aprisionada pelas mordaças impostas por um estrato social reduzido, vítima daquela que parecia um agente de libertação e se converte em mais uma portadora de correntes e cadeados. A relação entre estas duas mulheres acaba por, findas as diabruras e cometidos todos os crimes, resumir a tragicidade, disfarçada de loucura romântica, trazida por este Lady Macbeth. A opressão doméstica e de classes, que parecia finalmente encontrar um inimigo à altura na jovem Katherine, transforma-se num ciclo vicioso e inacabável. Onde não há música nem sentimento, apenas uma mulher que, no fim, num canapé amarelo se senta, negra por fora, negra por dentro.

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