Hereditary

‘Hereditary’, um antro de perversidade

Todos nós estamos sujeitos a uma herança, a uma réstia do passado. Quer seja através do trespasse de informação genética, bens imobiliários, dívidas, conhecimento, carinho ou problemas que ficam por resolver, todos nós recebemos algo dos nossos antepassados e, muitas vezes, temos de lidar com essas cinzas durante anos a fio, numa mescla de luto e renovação, das memórias do passado e a promessa dum futuro mais risonho – uma zona cinzenta, uma terra de ninguém por onde cada um vagueia ao seu ritmo, à mercê de emoções inesperadas. E é nessa região que Hereditary, realizado e escrito por Ari Aster, edifica um antro de perversidade, uma máquina de referências aos grandes clássicos do género de terror, ao lançar-nos para o seio duma família que acaba de ver morrer a matriarca do clã, uma idosa portadora de vários distúrbios psiquiátricos. Como em muitas situações semelhantes, é tempo de luto, de recordar os bons e os maus momentos, e é na essência desse sentimento de perda, misturado com o alívio de quem já não tem de conviver com a senilidade – e com algo bem mais obscuro – que a perturbação se inicia, que um perfume macabro, nauseabundo, começa a espalhar-se sem retorno possível. Aos poucos, o pesar de Annie (Toni Collette), a filha que ficou para trás, também ela com os seus próprios filhos, adquire contornos macabros, conforme se percebe, por entre diálogos no auge do nervosismo e dicas discretas, a relação da falecida com o oculto. Ficamos, então, com as consequências dessa herança, com um gene maléfico que teima em desaparecer, uma metáfora maquiavélica para o quão inevitável é o que é hereditário.

Hereditary

Desde logo, é necessário parabenizar o estúdio responsável pelo projeto, o A24, pela sua determinação em criar filmes de terror, e não só, com uma base intelectual sólida e estimulante, numa altura em que se sabe de antemão a preferência das massas por experiências mais literais, como por exemplo The Conjuring, que, entretanto, se transformou num previsível franchise. Filmes como The Witch (2015), It Comes at Night (2017) ou The Killing of a Sacred Deer (2017) são alguns dos bons exemplos da originalidade e perseverança da empresa no que à apresentação de histórias com fins alegóricos diz respeito, juntando-se ainda, por regra, uma componente de estudo de personagem bastante afincada. No caso deste filme da autoria do estreante Aster, essa análise ao dispositivo emocional do ser humano recai maioritariamente sobre a personagem interpretada por Collette, uma artista plástica especializada em dioramas. Nessas miniaturas, numa estética mais virada para a “casa de bonecas”, esta replica a sua dor, constrói simulacros dos seus traumas recentes, conceito que é sublimemente aproveitado pelo cinematógrafo Pawel Pogorzelski. Ao optar por filmar as divisões da casa sombria onde a família de Annie vive, recorrendo a planos médios, quase abertos, que mostram, muitas das vezes, toda a amplitude das divisões, acrescendo-se ainda alguns efeitos fade-in exímios, este conseguiu criar uma ligação subversiva entre a ocupação da personagem principal – construir maquetes minúsculas autobiográficas – e a sensação de omnipresença tão desejada num filme do género, ou seja, a proposta de que existe uma força superior, provavelmente sinistra, que comanda as hostes, uma mão invisível que paira sobre miniaturas frágeis e manipuláveis. No auxílio a essa contextualização psicológica está também uma banda sonora prepotente, repleta de efeitos que visam trocar as voltas ao espectador, havendo cenas em que é quase possível duvidar se o zumbido de fundo faz parte do filme ou é defeito das colunas do cinema. Porém, apesar de discretamente sugerida, essa entidade superior permanece em dúvida, nas sombras, à medida que a mulher e os seus parceiros para a vida, um marido preocupado (Gabriel Byrne), um jovem com apetite por drogas leves (Alex Wolff) e uma adolescente com claros problemas psicológicos (Milly Shapiro), se digladiam por uma vitória emocional, no meio dum lago negro, poluído por anos de ressentimento. Como tal, o requisito mínimo para a desintegração do núcleo familiar, um que até parece estável, é precisamente essa ambiguidade, mantida com uma precisão exemplar por parte do realizador e do elenco: afinal, estamos perante um filme de terror convencional, no sentido em que existe algo de paranormal, ou um psicodrama que usa as técnicas geralmente empregues no terror para nos atirar para uma armadilha, um beco sem saída onde somos confrontados com a depressão e raiva do objeto de estudo, neste caso a família em liquidação total que se agarra às bóias do passado para não se afogar nos desafios do presente? É pena que a resposta a esta pergunta seja manifestada duma forma algo promíscua, já que a parábola ao processo de luto que é mantida durante grande parte da obra, a tal dualidade de hipóteses, é traída por uma abordagem hiperliteral que recorre aos truques expositivos do costume para dar sentido à narrativa. De repente, Hereditary deixa de ser uma experiência de requinte, subtil, cerebral, para passar a ser mais uma exposição de mitologias, conforme, à última hora, se vão manifestando os livros e fotos que tudo revelam, para variar, à mão de semear da personagem feita detetive. Dá-se, portanto, uma inegável metamorfose da narrativa para os campos do explícito e banal que, podendo agradar a alguns, deita por terra a premissa erudita que havia sido criada, mudança qualitativa que é disfarçada pelo impressionante trabalho de Collette, que tem aqui a melhor interpretação da sua carreira.

HereditaryNão obstante o último ato menos bem-conseguido, está-se perante uma obra repleta de singularidades, com momentos completamente bizarros e inesperados. A atenção ao pormenor por parte da equipa criativa é notória, ficando-se com uma série de cenas memoráveis. Por exemplo, é manifesta a atenção da câmara a objetos pontiagudos, todos eles com direito ao seu close-up, numa tentativa lucrativa de aumentar a tensão, face à instabilidade emocional das personagens – a qualquer momento, em qualquer um dos cenários, algo de muito abrupto e nocivo pode acontecer. À semelhança do já referido The Witch, o filme é obcecado com a forma como entes queridos se podem agredir psicologicamente quando a dor é demasiado grande para ser deixada em paz. A cada minuto que passa, essa animosidade é mais espicaçada, mais explorada duma perspetiva negra e sinistra. Tal como algumas das suas referências, como Rosemary’s Baby (1968) ou The Shining (1980), Hereditary é um filme que se agarra a nós, talvez porque a maioria de nós tem uma família com a qual convive, ora nas horas de bonança, ora nas horas de desgraça. Por isso, é aceitável afirmar que o terror da obra, para além das cenas desenhadas a preceito do arrepio, reside na extrapolação surreal do que é viver em família, na criação de situações quase impossíveis onde a alegria e sanidade são iguarias extintas. Pena que a viagem em si seja bastante melhor que o destino final.

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