Heat

‘Heat’, tão perigoso quanto estar acompanhado é estar sozinho

Em 1963, o detetive Charlie Adamson sentou-se à mesa para um café com Neil McCauley, um ladrão de bancos com um denso cadastro. Tal como o polícia conta no documentário The Making of Heat (2005), a conversa entre ambos foi tensa, mas sincera. O primeiro avisou o ladrão de que a sua sorte não iria durar muito mais tempo e o segundo vincou a vontade de reincidir numa vida de crime e recompensa, mesmo que isso implicasse um encontro inoportuno com o detetive que, certamente, acabaria em sangue para um dos lados. Um ano depois, um grupo de homens armados, do qual fazia parte McCauley, assaltou um banco e roubou uma larga quantia de dinheiro. Cá fora, esperava-os Adamson e o seu parceiro, já que o detetive andava, há largas semanas, a rastrear as atividades do gangue, à espera da oportunidade perfeita para os apanhar em flagrante. Depois duma perseguição intensa a pé, McCauley acabaria morto no relvado dum residente local, alvejado pelo detetive. Cerca de vinte anos mais tarde, Adamson viria a tornar-se um dos escritores mais requisitados pelas equipas de produção de séries policiais, oferecendo as suas histórias passadas nas ruas de Chicago aos guionistas de projetos televisivos de culto como Crime Story e Miami Vice. E foi uma dessas vinhetas urbanas que chamou a atenção do realizador Michael Mann, na altura produtor executivo de Miami Vice, mais propriamente a história do ladrão Neil McCauley e o encontro que este havia tido com o seu captor num café, semanas antes do seu destino fatal. Um conto de dois homens semelhantes que, porém, se encontravam em lados opostos da lei.

Heat

O detetive Vincent Hanna, a encarnação fílmica de Charlie Adamson, manda parar o veículo onde se desloca Neil McCauley, inspirado no bandido homónimo, e convida-o para um café. “Parece-me uma boa ideia”, responde o ladrão, com uma arma à mão de semear na lateral do assento. Interpretados por Al Pacino e Robert De Niro, respetivamente, os dois homens dirigem-se a um diner nas redondezas e, por largos minutos, hasteiam bandeira branca. Apesar de viverem em lados diferentes da barricada, as suas personalidades igualam-se em engenho e vício por adrenalina. Hanna alimenta-se da caça aos foras-da-lei e o seu opositor duma constante fuga às autoridades – dois lados da mesma moeda. Na pele destas duas personagens modelo – o polícia e o ladrão -, já os dois atores estiveram muitas vezes. É quase possível dizer que estes, se se tiver em conta o tempo que passaram a estudar o género criminal, já foram mais tempo polícias e criminosos do que alguns polícias e criminosos. E haverão ainda muitos polícias e criminosos que baseiam os seus comportamentos nas personagens interpretadas por estes ao longo dos anos, numa clara ode ao efeito da cultura popular sobre as pessoas e as suas ações. Como tal, em Heat (1995), é notório o controlo destas duas lendas sobre o que estão a fazer e o tom que têm de adotar para que as suas personagens transmitam as emoções desejadas. De Niro num registo frio, calculista, dependente das expressões oculares, Pacino no seu tão famoso cunho passivo-agressivo, a roçar o lunático. Esta foi também a primeira vez que o duo partilhou o mesmo plano, apesar de ambos terem participado em The Godfather: Part II (1974). A estes juntaram-se ainda Val Kilmer, Tom Sizemore e Danny Trejo, que completam o gangue de McCauley. Tendo em conta o paradigma algo repetitivo – os dois protagonistas a repisarem território artístico – a solução de Mann para desmontar esse ciclo fastidioso foi a introdução de personagens femininas desenhadas com o intuito de causar dúvida e impugnar o machismo inerente ao mundo do crime. As esposas e namoradas, encarnadas por atrizes como Ashley Judd, Diane Venora ou Amy Brenneman, são o pêndulo emocional do filme, as causadoras de discórdia e instabilidade, transformando a obra num drama multifacetado a partir do momento em que sentimentos como o amor, ciúme ou depressão entram no jogo. Ademais, o estudo sobre o quotidiano do detetive e escritor Charlie Adamson, e dos malfeitores que este perseguia e prendia, foi igualmente realizado em relação às esposas de criminosos condenados, pois as atrizes passaram dezenas de horas a conversar com as esposas experimentadas na arte de conviver com maridos ligados ao submundo. No que toca aos criminosos da vida real, por exemplo, Sizemore entrevistou vários ladrões de bancos numa prisão e Mann serviu de pendura a um polícia, enquanto este fazia rondas por um perigoso bairro de Los Angeles. “Às vezes, eu dava-lhe uma pistola, porque ele quase se tornou meu parceiro”, confessou o agente da LAPD, Tom Elfmont. Como resultado do trabalho de pesquisa efetuado, Heat consagra-se como uma obra realista do ponto de vista psicológico, assente na mentalidade de polícias e bandidos genuínos.

Heat

Não obstante a qualidade da vertente documental, o grande trunfo do filme é a forma como Mann conseguiu misturar todos esses diálogos, aprofundados por centenas de horas de investigação, com uma fotografia singular e uma noção omnipresente da cidade de Los Angeles. Desde os créditos iniciais, em que os nomes de Pacino e De Niro estão lado a lado, que Mann fez questão de equiparar as duas personagens principais, criando, no entanto, um contraste estético e emocional entre estas. Enquanto o casamento do detetive Hanna está a ruir, o seu antagonista está a iniciar uma relação amorosa com uma jovem artista, interpretada por Brenneman. Enquanto o primeiro perde o controlo muito facilmente, em momentos exuberantes de raiva e sarcasmo, o segundo mantém uma frieza praticamente impenetrável. “Não te deixes apegar a nada que não estejas disposto a abandonar em menos de trinta segundos, quando sentes o calor (heat) ao virar da esquina”, é este o lema do ladrão. Como tal, de maneira a exacerbar a solidão que o sujeito impõe a si próprio, vítima do seu código moral, o diretor de fotografia Dante Spinotti usa câmaras de longo alcance, com uma distância focal curta, para o filmar quando está sozinho, fazendo com que a sua figura sobressaia em relação ao cenário circundante, ficando tudo o resto ligeiramente desfocado. Todavia, quando o ladrão anda nas suas lides duvidosas, acompanhado pelos seus parceiros do crime, atividade que este vê como uma solução para, no futuro, levar uma vida desafogada, salta-se para um conjunto de imagens nítidas, repletas de cores frias. Curiosamente, quando a personagem de De Niro convive com a sua paixão recente, é usado o mesmo tipo de filmagem dos momentos de solidão, sugerindo-se que o homem deixou alguém entrar na sua bolha de isolamento, de que existe partilha emocional. Quanto ao detetive, dá-se exatamente o processo inverso: quando este está com a esposa, interpretada por Venora, irritada com a fixação deste com o trabalho, todas essas cenas são filmadas utilizando os mesmos ângulos e filtros do que quando McCauley leva avante a sua vida de ladrão profissional, sugerindo que, para o polícia, a relação marital tornou-se uma espécie de trabalho, um “picar de cartão” exasperante. Para completar este jogo de espelhos, quando Hanna anda pelas ruas a investigar crimes hediondos e a conviver com a escória de Los Angeles, este é filmado da mesma forma que McCauley nos tais momentos de solidão ou de comunhão com a sua jovem amante, sendo transmitida a dica visual de que é no meio do crime e da violência que o detetive se sente realmente bem, mesmo que isso implique afugentar a sua esposa. A repetição de certas estéticas é, portanto, utilizada para parabolizar o estado de espírito dos dois protagonistas que,  apesar de partilharem normas e códigos semelhantes, se encontram em fases diferentes da vida: enquanto Hanna foge de casa e da sua companheira, e usa o trabalho como refúgio, McCauley faz o seu trabalho na esperança de um dia poder erguer uma casa com a sua companheira. Entre os dois colossos em rota de colisão encontra-se a cidade de Los Angeles, enquadrada pelo realizador duma forma quase única, vigorando não só como paisagem de fundo, mas também como parte integrante da disposição psicológica das personagens. Para tal, quando filmada do cimo de edifícios altos, como o apartamento de luxo de McCauley, a cidade é apresentada quase como uma miragem longínqua, repleta de pequenos diamantes – as luzes urbanas – à mão de semear, pequenas presas ao olhar dum predador altivo, vigilante, matreiro. Ao contrário, quando a ação se desloca para o solo, a cidade é filmada com uma mestria inqualificável, com uma noção de espaço exímia, estando os vários cenários cobertos de figurantes, pormenor que transmite vivacidade aos acontecimentos e tantas vezes é ignorado pela maioria das produções. Exemplo disso é uma cena do crime onde foi encontrado o corpo duma jovem prostituta: à volta, aglomeram-se dezenas de pessoas banhadas pela curiosidade mórbida que tanto assola o ser humano em ocasiões semelhantes. Na maioria dos filmes, estas minudências são comumente ignoradas ou esquecidas, muitas vezes para poupar no orçamento. Outro realizador que dá extrema importância ao conceito de cidade como parte integrante do ecossistema cinematográfico, e que já confessou, mais que uma vez, a sua admiração pelas técnicas de Mann, é Christopher Nolan. Em The Dark Knight (2008), o cineasta utilizou a cidade de Gotham, Manhattan mais precisamente, como metáfora visual para o estado de vigilância constante do herói da história, Bruce Wayne, interpretado por Christian Bale. Em várias cenas, podemos ver o herói encapuçado no cimo de edifícios, à espera, à escuta, pronto para atuar, as suas costas geralmente acompanhadas por câmaras IMAX que rodam à volta da sua silhueta, ao mesmo tempo que destacam a cidade que caiu nas mãos do vilão Joker, interpretado por Heath Ledger. Voltando a Heat, o que se tem é uma harmonia, extremamente difícil de alcançar, entre estilo e realismo, entre a excitação típica e desejada no género criminal e a exploração dramática da tragédia humana. A exponenciar esse composto está igualmente a banda sonora que divaga entre sons clássicos de cordas – vertente realista – e sons eletrónicos e algo esotéricos criados pelo músico Moby – vertente estilizada. Contudo, nada disto funciona sem uma das peças fundamentais a qualquer obra fílmica: o guião. E é efetivamente a escrita de Mann que eleva o resto do material, através de diálogos complexos, mas nunca abstratos. As personagens têm espaço para dizerem aquilo que pensam, para expressarem os seus sentimentos mais profundos sem que, no entanto, a história caia num poço empestado de lugares comuns ou situações demasiado melosas que, vulgarmente, estragam muitos filmes de ação que tentam, em vão, perscrutar o lado mais humano das suas personagens, muitos deles inspirados precisamente em obras de Mann, como Thief (1981) ou Manhunter (1986). Exemplo desse equilíbrio saudável é a icónica cena que junta pela primeira vez Pacino e De Niro no mesmo plano. De realçar que ambos se encontravam no topo das suas carreiras, construídas maioritariamente em cima de filmes do género. Pacino já havia sido o polícia perspicaz em filmes como Serpico (1973), Cruising (1980) ou Sea of Love (1989) e De Niro o criminoso engenhoso em Mean Streets (1973), The Untouchables (1987) ou Goodfellas (1990). Era muito fácil para Mann aproveitar-se do momento, exagerar, apontar para o céu e acabar por disparar para o chão. Porém, a cena é, ainda hoje, um dos momentos mais sublimes da História do Cinema, não só pelo simbolismo da reunião dos dois pesos-pesados, mas também pelo exemplo acurado da utilização da câmara por cima do ombro, técnica utilizada em muitos diálogos ao longo dos anos. Ao mesmo tempo que a estética é exaltada, com o café a transmitir uma aura de intimidade, já que os dois homens partilham sentimentos semelhantes – dois leões que querem conquistar a selva -, o realismo é, mais uma vez, a nota dominante, conforme estes exploram os seus dramas pessoais – ser o rei da selva tem um preço elevado e, tal como estes confessam, são as pessoas mais próximas que pagam a coima. A obra consagra-se como um dos filmes mais influentes da década de noventa, e quiça de sempre, pela sua abordagem sentimental e humana ao género criminal. Passa da simples história sobre polícias e ladrões para um conto sobre as relações humanas e a forma como estas podem ser afetadas por circunstâncias extraordinárias. No meio do thriller, noir, heist movie, melodrama – e de outras etiquetas lhe que possam ser atribuídas – encontra-se um ensaio subtil sobre os obstáculos inerentes à vontade do ser humano de ser mais e melhor na sua linha de atividade, de ter sucesso. Ambos os protagonistas, apesar de terem objetivos diferentes, querem ser bem-sucedidos nas suas atividades e, para isso, sabem que têm de percorrer um caminho solitário, no entanto, durante todo o filme, deparam-se com situações em que se veem obrigados a deitar esse código moral por terra. Heat escava um dos dilemas mais substanciais da vida social e que tanto maça a mente às pessoas que têm medo de se entregar a outrem: tão perigoso quanto estar acompanhado é estar sozinho.

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