‘BlacKkKlansman’, um enorme pedregulho

Um casal apaixonado partilha os calores da meia-noite. Juntinhos, agarrados aos lençóis e à libido febril, falam sobre os desafios da vida em conjunto, sobre os seus sonhos e a forma como estes, aos poucos, se tornam realidade. O sonho de Connie, interpretada por Ashlie Atkinson, tal como esta o põe, é “matar pretos”, fixação que se manifesta igualmente na mente do seu marido, Felix, um membro do Ku Klux Klan interpretado por Jasper Pääkkönen. E a possibilidade disso vir mesmo a acontecer alimenta os preliminares dessa noite romântica passada nos anos 70. O homem faz parte duma filial local da organização supremacista branca sediada em Colorado Springs, a mesma cidade onde o primeiro polícia negro da região, Ron Stallworth, interpretado por John David Washington, resolve um dia fazer um telefonema para essa mesma organização que acaba na marcação dum encontro e num sonoro ‘Viva a América branca!’. Surge um problema algo óbvio: tal como o seu chefe sugere em jeito de trote, não convém nada que Ron apareça nessa reunião. O subterfúgio é nada mais do que perfeito para inserir outra personagem que, caso estivesse a ser “ela própria”, também se depararia com sérios problemas ao abeirar-se da filial do Klan – Flip Zimmerman, um agente de origem judaica interpretado por Adam Driver. Juntos, os dois polícias infiltram-se no grupo racista, sendo que Ron vai conduzindo a missão pelo telefone e Flip dá o corpo caucasiano ao manifesto. Chegada à hora do primeiro encontro, ninguém se surpreenderá, tal foi a facilidade, que o agente infiltrado encontre uma cambada de idiotas com um pingo a mais de imaginação, mas também de ignorância. Inspirado no livro da autoria de Stallworth, e realizado por Spike Lee, BlacKkKlansman debruça-se sobre essa boçalidade que, tanto nos anos 70 como agora, tem atirado os Estados Unidos da América para um rio de controvérsias e momentos absolutamente nefastos.

BlacKkKlansman

Por mais mórbida que possa ser a adjetivação, pode referir-se que o realizador afro-americano, muito ligado às causas sociais, encontrou a tempestade perfeita para libertar o seu furacão de revolta contra as organizações que promovem o racismo, mas também contra a própria indústria de Hollywood. Como tal, o filme está repleto de referências a obras cinematográficas do passado que, inocentemente ou não, incentivaram a propagação de idiossincrasias erróneas. Por exemplo, Lee fez questão de apresentar um prelúdio recheado pela cena de Gone with the Wind (1939) em que Vivien Leigh deambula por entre dezenas de soldados da Confederação à procura dum médico, filme que lisonjeia em demasia a guerra civil americana e a bandeira confederada, tendo em conta que o lado abordado defendia o esclavagismo. Outro tiro certeiro é dado na direção de The Birth of a Nation (1915), longa metragem que é tida como o primeiro grande blockbuster de Hollywood, tendo sido até mostrada na Casa Branca e apadrinhada pelo presidente da altura. Não obstante a revolução técnica trazida pelo realizador D.W. Griffith, numa altura em que o cinema era ainda uma arte a dar os primeiros passos, a verdade é que o filme, que conta a história dum conflito entre negros e brancos, e que viria a tornar-se num enorme sucesso a nível nacional, heroifica o Ku Klux Klan. Com isto, o realizador de Do the Right Thing (1989) e Malcolm X (1992) navega por águas traiçoeiras, mostra o dedo do meio a uma porção considerável da cultura popular e à forma como esta supostamente influenciou negativamente a perspetiva do cidadão comum em relação às questões raciais. Sem ser um filme de respostas, nem de muitas perguntas, BlacKkKlansman é um filme de combate. Lee tenta dizer ao espectador que os comportamentos representados não nasceram sozinhos e, por mais desagradável que possa ser essa análise, o cinema dirigido às massas poderá ter tido um papel preponderante nessa degradação dos valores sociais das novas gerações que, seria de supor, já não se sentiriam atraídas pelas ideias absurdas e cruéis dos avós. Tão enganados que estávamos ou, tal como diz uma das personagens a dado momento, basta transportar essas ideias para o panorama económico, arranjar alguém famoso que dê a cara, e os americanos lá hão de cometer o erro de votar nele.

BlacKkKlansman

Pena que Lee inicie este colóquio duma forma brilhante, recorrendo a essas imagens marcantes e altamente danificadoras de outrora – imagine-se um miúdo crescido na urbe a ver estes super-heróis de capuz branco e cruz vermelha ao peito a salvar uma cidade em apuros -, mas, com o decorrer do enredo, esse imaginário não dê origem a uma reflexão mais profunda e exigente sobre a realidade norte-americana. Por mais que possamos e devamos torcer por este manifesto artístico, há também que apontar alguma falta de subtileza ao guião escrito pelo cineasta em parceria com Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott. A maioria dos elementos do Klan são caracterizados como autênticos energúmenos, inclusivamente o seu líder nacional, David Duke, interpretado por Topher Grace, e todos os polícias, com a exceção duma caricatura secundária, são descritos como profissionais praticamente imaculados, completamente afastados das resenhas da altura que apontam para uma força policial bastante racista – quem não se recorda do pesadíssimo Detroit (2017) de Kathryn Bigelow – e, justamente e com razão, a todas as personagens negras é acrescentado o devido espírito de frustração e insurreição contra uma sociedade adversa à sua cor de pele. Perante tal simplismo e contraste – “poder branco” vs. “poder negro”- , poderemos perguntar: quem é realmente afetado por este filme? A comunidade negra, sem qualquer surpresa, aderiu em peso a BlacKkKlansman, e os apoiantes das ideias extremas abordadas, ou até as pessoas que se inclinam para esse lado da mesa política, ter-se-ão, tal como as reações iniciais nas várias esferas sociais indicam, afastado do cinema, reclamado de mais um delírio democrata e criado uma conta no IMDb só para clicar no zero. E toda a gente que se encontra no meio? Até que ponto é que esta obra consegue ser ácida e incómoda para essas pessoas? Até que ponto é que o pai de família, branco, de classe média, que, apesar de não concordar com o seu discurso xenófobo e misógino, votou Trump se vai sentir apoquentado com o que é escarrapachado na tela? Talvez não fosse esse o objetivo, todavia, face às cenas que vão lotando a narrativa, é impossível não magicar uma série de temas que podiam ter sido abordados e que, surpreendentemente, não são. Por exemplo, numa das várias cenas que vão retirando ritmo ao filme, o agente Flip, já integrado nas andanças da filial local do Klan, vai a uma pequena reunião em que os seus novos amigos saloios, um deles completamente embriagado, sacam das armas e afirmam a necessidade de andarem sempre armados, nem que seja pelo facto de poderem dizer que andam sempre armados. O palco está montado, a conversa está iniciada, mas o qualquer reparo irónico ou incisivo que pudesse surgir sobre as políticas do porte de arma e a sua ligação às atividades destas organizações acaba por não surgir. E o mesmo acontece em muitas outras sequências, com muitos outros assuntos, estando a obra demasiado agarrada a um tom caricatural que, em contrapartida, nem sempre cumpre a missão de ter piada. BlacKkKlansman é, sem dúvida, um filme duro, ocasionalmente cómico, com o coração no sítio, porém, há que referir que, infelizmente, muitas das suas tentativas de crítica social e política à “América normal” caem bastante no limbo, ineficazes no toque a uma sociedade que, todos os dias, por omissão ou desatenção, permite que certos e determinados eventos de cariz racista, e não só, continuem a acontecer. Lee preocupou-se tanto em ridicularizar o Ku Klux Klan que acabou por negligenciar a reflexão mais penetrante que se impunha: como é que, em 1970 ou 2018, estes movimentos ainda podem estar de pé e de boa saúde? Qual é a máquina psicológica e ideológica que faz com que o cidadão comum ainda tolere esse tipo de manifestações? O que leva um jovem a juntar-se a uma organização deste género? Em síntese, temos um filme que nos diz muito sobre o que já tínhamos constatado – a sociedade moderna ainda está repleta do puro e ancestral racismo – e pouco sobre as perguntas difíceis que devem ser feitas, excetuando as ditas referências ao cinema antigo. Um bom exemplo dum projeto que consegue preencher estas lacunas duma forma extremamente engenhosa é Get Out (2017) de Jordan Peele, que, curiosamente, é um dos produtores desta nova tentativa de envergonhar a América ultraconservadora. No entanto, ao passo que Peele encarou o corpo satírico da sua narrativa como um veículo para abordar assuntos complexos duma forma completamente diferente do habitual, Lee usou o da sua como um lutador de rua descuidado e bruto disposto a dar uma sova no seu adversário. Para quem só agora se aventura pelo tema da discriminação racial e pelas obras que o abordam, BlacKkKlansman poderá ser um grande teste de iniciação, porém, para quem já é calejado nessas andanças e procure um novo prisma, o filme, independentemente do seu virtuosismo, poderá tornar-se numa experiência algo incompleta. Ousada, mas também reincidente na demonstração algo trivial dum rei que já anda nu há muito tempo.

BlacKkKlansman

Não obstante o guião pouco subtil ou inventivo, está-se perante uma obra de cariz existencial e universal. A ausência de algumas questões ou intervenções pertinentes é compensada por um ataque feroz aos movimentos supremacistas, trazido por uma abordagem clássica baseada em algumas obras precisamente dos anos 70, uma seta apontada ao blaxploitation, movimento cinematográfico que tinha como objetivo chegar ao público afro-americano. Ao mesmo tempo que algumas das cenas parecem prolongar-se em demasia, roubando ao filme aquele ritmo frenético à la Scorsese que se podia esperar duma sátira social, outras acabam por reforçá-lo emocionalmente, quando acabamos por perceber que muita dessa prolongação é executada nas cenas em que as personagens negras se estão a divertir, como que apontando para a possibilidade de tudo o resto ser vivido num clima de desconforto constante. A edição de Barry Alexander Brown, apesar de alguns lapsos, faz-se notar durante as chamadas telefónicas entre Stallworth e os elementos do Klan, sendo aplicado um exímio jogo de campos e contra-campos, num interessante regresso do realizador ao seu filme de 1996, Girl 6, que preconiza uma atriz viciada em linhas eróticas. Se bem que falte alguma exaltação, alguma imersão nos dilemas inerentes às suas personagens, Washington e Driver fazem um trabalho competente, sendo que o destaque terá de ser dado a Topher Grace, que conseguiu, com uma interpretação gélida, quase perturbante, exemplificar como um pão sem sal como David Duke conseguiu, ao longo dos anos, convencer milhares de jovens a juntarem-se a uma causa do mais acéfala que pode haver. Em suma, BlacKkKlansman soa como um poema escrito à pressão, tão cismado em expor a vergonha alheia do seu alvo, que insiste em forçar uma coleção de justaposições com o momento atual – “recuperar a grandeza da América”, diz um dos supremacistas -, acabando esses momentos excessivamente sugestivos por funcionar como um enorme pedregulho que é atirado contra a janela do Tio Sam, quando muitos ansiavam por um graffiti gigantesco nas paredes da casa, um que todos os vizinhos pudessem ver e apreciar durante dias a fio. Enquanto o graffiti poderia durar bastante tempo, até para sempre, caso não fosse feito um egrégio trabalho de limpeza, os danos causados por este arremesso podem ser rapidamente consertados, disfarçados para que, no dia seguinte, fique apenas a memória soturna dum vidro a partir. E o Tio Sam vai à sua vida, como sempre fez. Mas há que dar o mérito a Spike Lee, o pedregulho foi atirado com muita força.

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