Babylon Berlin

‘Babylon Berlin’, sexo, drogas e o nazismo a bater à porta

Perseguido pelo travo dos filmes noir americanos dos anos 40, o Inspector Rath, interpretado por Volker Bruch, atravessa uma ruela berlinense em busca de novas pistas para a sua investigação. A sua mão trémula, maleita comum nos soldados traumatizados com a 1ª Grande Guerra, fá-lo abrandar e olhar em volta. O trauma é visto como sinal de fraqueza, como reflexo duma Alemanha perdedora e humilhada aos olhos dos imperialistas, a doença dos que se renderam ao Tratado de Versalhes. Numa golada, ingere a droga que lhe permite não tremer, não ceder, continuar sob controlo, camuflado das atenções indesejadas de quem não vê a democracia com bons olhos. Trá-lo a Berlim uma película pornográfica que anda a servir de veículo para chantagear pessoas importantes, as mesmas a quem tem de reportar as suas descobertas. Pela metrópole alemã, eximiamente reproduzida no antigo estúdio Babelsberg, ecoam os gritos reivindicativos de comunistas e socialistas, a dor dos pobres afetados pela hiperinflação pós-Primeira Guerra, e os sussuros abafados de golpes militares planeados em caves húmidas e fábricas abandonadas. É 1929 e Berlim, a carótida da República de Weimar, é, provavelmente, o local mais adequado para explorar a Europa entre guerras. Para além da borrasca política, com vários grupos ideológicos a digladiarem-se entre si, assiste-se também a uma revolução social e cultural. Despojados duma liderança altamente autocrática e conservadora, os berlinenses, assim como os forasteiros que visitam a cidade, ambientam-se a uma nova realidade, mais aberta, mais flexível, onde as visitas a clubes noturnos se tornam a medicina prescrita a qualquer adulto que queira experimentar novas sensações. E é com esse desenho libertino que Babylon Berlin está, porventura, a pescar espectadores por todo o mundo, enfeitiçados pela sua energia boémia e sensual que, no entanto, não descura os sentimentos negativos que assolavam uma população anestesiada pelos traumas da guerra e pelo cheiro a podre que emanava dum pandemónio político sem igual – sexo, drogas e o nazismo a bater à porta.

Babylon Berlin

Partindo dessa premissa, uma que é contestável, de que a série deve ser contemplada com a potencial ascensão do nazismo em mente, é fácil estabelecer ligações com o mundo atual. Apesar da disparidade temporal e situacional, é fascinante, e preocupante, a forma como a série capta a febre populista que, no passado tal como agora, devora o motor intelectual dos cidadãos, presos inevitavelmente a ciclos de pobreza, a falsas promessas e às maquinações secretas das forças políticas. Escondido num enredo algo complexo sobre casos de polícia, encabeçado pelo Inspetor Rath, está uma observação discreta sobre as convulsões e condições que levam ao aparecimento de estruturas opressoras. Ademais, pode encontrar-se igualmente um conto feminista cujo epicentro está na ajudante do Inspector, Charlotte, interpretada por Liv Lisa Fries, uma jovem ambiciosa e perspicaz que gasta as horas a catalogar fotos de homicídios durante o dia, e que se aventura pelos clubes de jazz à noite, no expressar sórdido duma vida dupla e necessária, ora não estivesse dependente dos seus ganhos uma família inteira a viver na pobreza. Babylon Berlin apresenta-se como um fruto suculento, funcionando estas duas personagens principais como uma primeira camada facilmente descascável, mas cujos sucos saborosos se entranham nas camadas internas, revelando-nos, aos poucos, o esplendor dum retrato social sem igual. Apesar de abordar a realidade norte-americana, nem Boardwalk Empire, produzido por Martin Scorsese, conseguiu tamanha proeza. Sem que este seja mencionado, salvo uma única vez – em 1929, o Partido Nacional Socialista, conhecido mais tarde como Partido Nazi, era ainda uma força política minúscula e obscura –, podemos sentir a sombra de Hitler a pairar sobre as ruas, como se, por trás de todas as músicas de cabaré e das vozes dos mais de 5 mil figurantes, reverbera-se um dos seus discursos ásperos e repleto de ódio.

Babylon Berlin

Criada por Tom Tykwer, Achim von Borries e Henk Handloegten, a série encontra o seu pico nas cenas passadas nos clubes noturnos e nas ruas da cidade. Com uma clara atenção ao pormenor, foi criado um ecossistema praticamente sem-par no que aos dramas históricos televisivos diz respeito. Desde os posters e pinturas clandestinas que pintam as esquinas com mensagens políticas, passando pelos transeuntes que enchem as ruas com o falatório germânico e as discussões do quotidiano, até aos barulhos de carros a arrancar e buzinas a apitar, tudo aponta para que Berlim seja a grande estrela da série, por mais avarias em que se metam o Inspector Rath e os seus colegas. E nesse cenário grandioso encaixa uma narrativa multidimensional, com reincidência nos diversos estratos sociais. Num minuto podemos estar na casa de Charlotte, banhados pela paupérie e desespero dos subúrbios, noutro podemos visitar a esquadra da polícia política ou os bastidores duma organização secreta de apoiantes de Trotsky, o opositor de Lenine. Em todos esses campos de batalha, a riqueza contextual é regra e o expoente máximo duma produção ambiciosa e dispendiosa. Porém, são talvez as cenas memoráveis que se desenrolam num clube noturno governado por um mafioso arménio que ganham o galardão da exuberância. O que poderia ser mais um repasto taciturno, atulhado de cores escuras e do mistério típico dos filmes noir, com um protagonista a preceito desse desenho, transforma-se num espetáculo de cores e diversidade, acabando a série por compensar algumas falhas no campo da edição e montagem com uma frescura audiovisual capaz de exaltar o mais tímido sentido. Baseada nos best-sellers de Volker Kutscher, que cobrem os 15 anos caóticos que precederam o Terceiro Reich, o mais entusiasmante é que em Babylon Berlin, apesar das duas temporadas bem conseguidas, reside a promessa de mais e melhor, conforme o Inspector Rath se vai emaranhando nas conspirações políticas que viriam a mudar o mundo.

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